Nota: este texto descreve um padrão de trabalho recorrente em operações industriais de grande porte. Nomes de clientes e números proprietários foram omitidos de propósito — a GLA só divulga case nominado com autorização expressa.
Uma planta industrial de grande porte chega ao jurídico externo com a mesma narrativa que ouvimos com frequência: "temos passivo, temos provisão, mas não sabemos por que o fluxo não cai".
Há carteira ajuizada, há escritório de defesa, há provisionamento sob CPC 25. O que não há é ligação entre o processo interno da planta e a entrada de novas ações.
O trabalho que descrevemos abaixo — diagnóstico → plano → gestão contínua — é o caminho que usamos quando o objetivo não é "ganhar mais uma causa", e sim mudar a composição do passivo ao longo de trimestres.
Em resumo
- O ponto de partida típico: carteira ativa sem agrupamento por causa raiz operacional.
- O diagnóstico reorganiza as ações por momento (contratação, jornada, SST, desligamento, terceiros) — o mesmo recorte sugerido pelo ranking oficial do TST.
- O plano ataca primeiro o que é sanável e controlável (rescisão, instrumento de jornada, fiscalização de prestadoras).
- A gestão contínua transforma gaps em indicadores mensais com dono interno.
- Resultado esperado: menos entrada evitável e melhor qualidade de provisão — não promessa de "zerar processos".
O problema que a empresa trazia
Operação industrial com turnos, forte presença de prestadoras dentro da planta e histórico relevante de reclamações. O jurídico interno acompanhava volume e provisão. O RH conduzia desligamentos e jornada. A produção priorizava cobertura de posto.
Três sintomas se repetiam:
- Entrada estável ou crescente apesar de defesa técnica competente.
- Provisão que "surpreendia" o financeiro a cada revisão — sinal de classificação frágil ou de passivo oculto (terceiros).
- Ninguém conseguia responder, em reunião de diretoria, qual processo interno originava a maior fatia das ações dos últimos doze meses.
Esse terceiro ponto é o diagnóstico em si. Se a empresa não agrupa por causa raiz, ela só reage.
Fase 1 — Diagnóstico (o mapa, não o volume)
O trabalho começou pela carteira e pela amostragem operacional — não pelo "checklist genérico de compliance".
O que foi feito
- Levantamento das ações recentes e classificação por momento do contrato (não só por pedido jurídico).
- Amostra de rescisões: prazo do art. 477, base de cálculo da multa de 40% do FGTS, documentação de justa causa.
- Amostra de jornada: validade do banco de horas (art. 59), qualidade do controle de ponto, autorização de extras.
- Inventário de prestadoras críticas: contratos, evidência de verificação de idoneidade e de fiscalização no período da prestação (art. 5º-A da Lei 6.019/74).
- SST: laudos, PGR/PCMSO, inconsistências que alimentam litígio de insalubridade — o assunto que lidera o ranking agregado do TST em 2024.
O que o mapa mostrou (padrão, não número confidencial)
Em operações desse perfil, o padrão recorrente é:
- Desligamento concentra pedidos objetivos e altamente evitáveis (verbas, multa do art. 477, diferenças de FGTS).
- Jornada concentra o volume nas Varas (horas extras) quando o controle é frágil ou o instrumento do banco é inadequado.
- Terceiros concentram contingência oculta — fora do eSocial da tomadora, dependente do inadimplemento alheio.
- SST concentra litígio longo e caro, mesmo quando a empresa tem tese defensável.
A leitura alinha-se ao que o TST publica em ordem de posição no RGJT 2024 e ao que o CNJ mostra sobre tempos: conhecimento resolve relativamente rápido; execução arrasta (média de 3 anos e 9 meses no acervo pendente de 1º grau).
Fase 2 — Plano (sanar o controlável primeiro)
Com o mapa, a priorização deixou de ser "o processo mais antigo" e passou a ser "a causa que mais alimenta entrada".
Frentes típicas do plano
| Prioridade | Ação | Por que primeiro |
|---|---|---|
| Alta | Protocolo formal de desligamento com dupla checagem e alerta de prazo | Pedidos objetivos; prevenção 100% controlável na multa do art. 477 |
| Alta | Revisar instrumento do banco de horas e política de extras | Horas extras lideram nas Varas; instrumento inválido vira prova contra |
| Alta | Rotina documental de fiscalização de prestadoras | Contingência subsidiária não aparece no balanço até materializar |
| Média | Atualizar laudos e alinhar PGR/PCMSO | Insalubridade sobe de instância; litígio técnico é caro |
| Média | Régua de acordo na fase de conhecimento | Conciliação 37,9% no conhecimento vs 7,9% na execução (CNJ) |
| Contínua | Painel mensal de entrada por causa raiz | Impede retorno ao modo reativo |
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Nada disso substitui a defesa dos casos já ajuizados. Muda o fluxo que chega amanhã.
Fase 3 — Gestão contínua (o que evita o efeito sanfona)
O risco clássico após um bom diagnóstico é o efeito sanfona: corrige-se por um trimestre, a atenção cai, a causa volta.
Por isso o handoff inclui:
- Dono nomeado por frente (jurídico + RH + operações, conforme o tema).
- Rito mensal de 30–45 minutos: entrada por causa raiz, status dos gaps, prestadoras sem evidência no mês, rescisões fora do checklist.
- Gatilhos que sobem ao comitê de riscos (pico de entrada em uma causa, laudo vencido crítico, prestadora inadimplente).
- Revisão trimestral do plano — não nova auditoria do zero, a menos que a operação mude de forma relevante (nova linha, nova escala, M&A).
O que muda — e o que não prometemos
O que costuma mudar, quando o ciclo é cumprido:
- A diretoria passa a discutir causas, não só volume.
- Gaps sanáveis fecham com evidência auditável.
- A provisão fica mais coerente com a realidade da carteira (CPC 25, limiar de "provável" acima de 50% — item 23).
- A decisão de acordar concentra-se na fase em que a conciliação funciona.
O que não prometemos — e nenhuma assessoria séria deveria prometer sem baseline auditável:
- Percentual genérico de redução de processos.
- "Valor médio de condenação" como métrica de mercado (não existe dado oficial do TST/CNJ nesse formato).
- Case nominado sem autorização do cliente.
Por que anonimizamos
Prova social importa. Confidencialidade importa mais. Em direito trabalhista empresarial, detalhes de planta, sindicato e estratégia de passivo são informação competitiva e, muitas vezes, coberta por sigilo contratual.
Quando houver autorização formal para nomear um cliente, o case será republicado com identificação. Até lá, o método é público; a identidade, não.
Como a GLA conduz esse processo
A GLA aplica o ciclo diagnóstico → plano → gestão contínua em operações industriais e de serviços com exposição relevante: auditoria por causa raiz, correção dos gaps controláveis e rotina de indicadores conectada à diretoria.
Se a sua empresa reconhece o sintoma — "temos passivo, mas não sabemos por que não cai" —, fale conosco. O primeiro entregável é o mapa de origem das ações dos últimos doze meses.
Fontes
- CNJ / TST — RGJT 2024 / ranking de assuntos
- CNJ — Justiça em Números 2026
- CLT — arts. 59 e 477
- Lei 6.019/74, art. 5º-A
- CPC 25


