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Escala 6x1: O Fim da Jornada de 44 Horas e o Impacto nas Empresas
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Escala 6x1: O Fim da Jornada de 44 Horas e o Impacto nas Empresas

31 de março de 2026
por GLA Advogados

O Debate que Mobiliza o País

A escala 6x1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias e descansa um — voltou ao centro do debate político e econômico em 2026. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim desse modelo e a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas já foi aprovada pela CCJ do Senado e segue para o plenário, mobilizando governo, empresários e trabalhadores.

Para as empresas, a questão vai muito além do debate político: envolve custos operacionais, planejamento de pessoal e competitividade. Este artigo analisa o que propõe a PEC, os impactos econômicos estimados e como as empresas devem se preparar.

O Que Propõe a PEC

A PEC de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), relatada pelo senador Rogério Carvalho (PT-SE), prevê duas mudanças constitucionais principais:

Redução da jornada semanal

A duração máxima do trabalho normal passaria de 44 horas semanais para 36 horas semanais, distribuídas em até cinco dias por semana. O limite diário de 8 horas seria mantido.

Ampliação do descanso semanal

O repouso semanal remunerado passaria de um dia para, no mínimo, dois dias, preferencialmente aos sábados e domingos.

A Transição Gradual

Reconhecendo o impacto sobre o setor produtivo, a PEC prevê um período de transição escalonado que pode durar até cinco anos:

PeríodoJornada máxima semanalDescanso mínimo
Até a aprovação44 horas1 dia
1º ano após aprovação40 horas2 dias
2º ano39 horas2 dias
3º ano38 horas2 dias
4º ano37 horas2 dias
5º ano em diante36 horas2 dias

Se a PEC fosse aprovada em 2026, por exemplo, a jornada cairia para 40 horas em 2027, reduzindo uma hora por ano até atingir 36 horas em 2031. A compensação de horários e a redução de jornada mediante acordo ou convenção coletiva continuariam permitidas durante a transição.

Impacto Econômico: Os Números

Diversos estudos têm quantificado o impacto financeiro da proposta sobre o setor produtivo:

Estudo da CNI (Confederação Nacional da Indústria)

A CNI estima que a redução de 44 para 40 horas semanais pode elevar os custos com empregados formais entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões por ano na economia brasileira. O impacto varia conforme o setor e o grau de intensidade de mão de obra.

Estudo do BTG Pactual

O banco de investimentos calculou que uma redução para 36 horas semanais provocaria uma queda direta de 16,1% no total de horas trabalhadas no país, com impacto estimado superior a R$ 20 bilhões sobre as empresas. O estudo destaca que as empresas menores seriam proporcionalmente mais afetadas.

Setores mais impactados

Os setores com maior dependência de mão de obra presencial e operacional são os mais vulneráveis:

  • Comércio e varejo: tradicionalmente dependentes da escala 6x1
  • Hotelaria e turismo: operações contínuas que exigem cobertura em finais de semana
  • Saúde: hospitais e clínicas com atendimento 24 horas
  • Indústria: linhas de produção com turnos contínuos
  • Logística e transporte: operações ininterruptas

O Que Dizem Economistas e Especialistas

O debate divide opiniões entre defensores e críticos da proposta:

Argumentos favoráveis

  • Qualidade de vida: mais tempo de descanso melhora a saúde física e mental dos trabalhadores
  • Produtividade: jornadas menores podem aumentar a produtividade por hora trabalhada
  • Consumo: trabalhadores com mais tempo livre tendem a consumir mais, aquecendo a economia
  • Alinhamento internacional: países europeus já praticam jornadas de 35-40 horas semanais
  • Redução de acidentes: trabalhadores descansados cometem menos erros e sofrem menos acidentes

Argumentos contrários

  • Custo para empresas: necessidade de contratar mais trabalhadores para cobrir as mesmas horas
  • Inflação: repasse de custos aos preços dos produtos e serviços
  • Informalidade: empresas menores podem migrar para contratações informais
  • Competitividade: aumento de custos pode afetar a competitividade do Brasil no mercado global
  • Desemprego: risco de demissões para compensar o aumento de custos

Tramitação e Cenário Político

A PEC já superou a fase de admissibilidade, tendo sido aprovada pela CCJ do Senado. Para se tornar Emenda Constitucional, ainda precisa:

  1. Aprovação no Plenário do Senado — em dois turnos, por maioria de 3/5 (49 votos)
  2. Aprovação na Câmara dos Deputados — em dois turnos, por maioria de 3/5 (308 votos)

O governo federal tem sinalizado apoio à redução de jornada, mas o ritmo de tramitação dependerá do calendário legislativo e das negociações políticas ao longo de 2026.

É possível que a proposta sofra alterações durante a tramitação, incluindo:

  • Exclusão de setores específicos do escopo da redução
  • Ampliação do período de transição
  • Previsão de incentivos fiscais para empresas afetadas
  • Fortalecimento da negociação coletiva como alternativa à imposição legal

O Que as Empresas Devem Fazer Agora

Independentemente da aprovação ou não da PEC, o tema exige planejamento antecipado:

1. Mapear o cenário atual

  • Quantos empregados trabalham em escala 6x1?
  • Qual o custo atual com horas extras e adicional noturno?
  • Existem convenções ou acordos coletivos que já prevejam jornadas reduzidas?

2. Simular cenários financeiros

  • Calcular o impacto da redução para 40 horas (cenário mais provável no curto prazo)
  • Estimar a necessidade de novas contratações para manter a operação
  • Avaliar o impacto sobre a folha de pagamento e os encargos

3. Investir em produtividade

  • Automatizar processos repetitivos
  • Adotar tecnologias que otimizem a operação
  • Treinar equipes para maior eficiência nas horas trabalhadas

4. Revisar escalas e turnos

  • Analisar modelos alternativos de organização do trabalho (12x36, banco de horas, turnos fixos)
  • Avaliar a possibilidade de compensação de jornada via acordo individual ou coletivo
  • Considerar o home office ou trabalho híbrido para funções compatíveis

5. Participar das negociações coletivas

  • Acompanhar a tramitação da PEC e seus substitutivos
  • Engajar-se através de entidades de classe e sindicatos patronais
  • Buscar soluções negociadas que considerem as particularidades de cada setor

Convenção Coletiva: A Alternativa Já Disponível

Vale lembrar que a Reforma Trabalhista de 2017 fortaleceu o princípio do negociado sobre o legislado (art. 611-A da CLT). Mesmo sem a PEC, empresas e sindicatos podem negociar:

  • Redução de jornada com compensação salarial
  • Escalas alternativas (5x2, 4x3, 12x36)
  • Banco de horas semestral ou anual
  • Jornada flexível com controle por resultado

Empresas que já adotam modelos flexíveis de jornada tendem a estar melhor posicionadas para uma eventual mudança constitucional.

Conclusão

A PEC do fim da escala 6x1 representa uma potencial mudança estrutural na organização do trabalho no Brasil. Ainda que a aprovação final dependa de um longo processo legislativo — e que o texto possa sofrer alterações significativas —, as empresas não devem aguardar o desfecho para agir.

O planejamento antecipado, a simulação de cenários e o investimento em produtividade são medidas prudentes que trazem benefícios independentemente do resultado legislativo. E a negociação coletiva continua sendo a ferramenta mais eficaz para adaptar a jornada de trabalho à realidade de cada setor e cada empresa.

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